Uma "curva inesperada da história", como diz o texto ao se referir à forma pela qual o século XX chegou ao fim, pode ser identificada na desintegração da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e no desmonte do denominado socialismo real do Leste europeu, sacramentando a morte de um sistema bipolar de poder mundial que vigorou, com maior ou menor intensidade, desde o pós-Segunda Guerra.
Uma "curva inesperada da história", como diz o texto ao se referir à forma pela qual o século XX chegou ao fim, pode…
Questão 71 do CACD 2004, História Mundial. Certo ou Errado · 10 itens. Resolva aqui: a correção vem na hora, com gabarito e comentário.
Há algo que não se pode dizer do século XX: que foi um tempo de brumas, silêncios e mistérios. Tudo nele foi a céu aberto, agressivamente iluminado, escancarado e estridente. E, no entanto, ele é ainda um enigma — um claro enigma, parafraseando Drummond —, e dele não podemos fazer o necrológio completo. E porque findou como uma curva inesperada da história, em um astucioso desencontro do que achávamos ser o futuro, turvou nossa memória e nosso olhar. E tornou-se pedra e esfinge, com um brilho que ainda cega e desafia. O século XX foi, sem dúvida, um século das utopias. O seu andamento coincidiu com a máxima expansão das categorias fundamentais do mundo moderno — sujeito e trabalho —, eixos que presidiram a atualização e exasperaram os limites do liberalismo e do socialismo, as duas grandes utopias da modernidade. E talvez por isso exiba uma característica única e contraditória: parece ter sido o mais preparado e explicado pelos séculos anteriores e, simultaneamente, o que mais distanciou a humanidade de seu passado, mesmo o mais próximo, decretando o caráter obsoleto de formas de vida e sociabilidade consolidadas durante milênios. O século XX sancionou o Estado-nação como a forma, por excelência, de organização das sociedades em peregrinação para o futuro e em busca de transparência. Os Estados nacionais ergueram-se como personagens privilegiadas de uma história humana cada vez mais cosmopolita, para lembrar Kant, modificando de forma radical a paisagem do mundo. Com eles, o direito assumiu progressivamente a condição de um idioma universal, reagindo sobre o passado e destruindo velhas estruturas hierárquicas fundadas em privilégios e na tradição. Mas o século XX não é apenas um tempo de esperanças. É também o século do medo e das tragédias injustificáveis. A dura realidade dos interesses provoca dois grandes conflitos mundiais, um tenso período de guerra fria e uma interminável série de guerras localizadas. Um século de violência dos que oprimem e dos que se revoltam.
Considerando o texto acima, julgue os itens seguintes, relativos ao cenário histórico do mundo contemporâneo.
A moderna industrialização, a partir da Revolução Industrial inglesa, desvelou uma nova realidade histórica que o texto indica como visceralmente oposta ao que existia antes, tornando obsoletas as "formas de vida e sociabilidade consolidadas durante milênios". Essa diferença manifesta-se, por exemplo, de modo "escancarado e estridente", na mudança do locus tradicional da vida social - homens e mulheres fogem ou são expulsos do mundo agrário e rural para as cidades.
Liberalismo e socialismo, "as duas grandes utopias da modernidade", como afirma o texto, encontraram seus limites à mesma época, ainda que por motivos e caminhos distintos. Com efeito, a crise social, política e econômica verificada nas décadas de 20 e 30 do século XX destruiu as bases do Estado liberal - substituído pelos modelos totalitários fascistas - e eliminou todo e qualquer apoio ideológico ao stalinismo soviético.
Quando o texto fala no direito assumindo "progressivamente a condição de um idioma universal" ao longo do século XX, certamente se refere, entre outros aspectos, ao surgimento da Liga das Nações e da Organização das Nações Unidas (ONU), ambas criadas a partir de pressupostos idealistas e razoavelmente apartadas do jogo de interesses e de manipulação do poder por parte dos Estados nacionais.
Exemplos de violência não faltam neste século XX, classificado também no texto como o tempo "do medo e das tragédias injustificáveis". Entre eles, podem ser destacados os artefatos nucleares e os fascismos, síntese incontrastável do que Hannah Arendt definiu como a banalização do mal.
Os dois grandes conflitos mundiais do século XX tiveram origens e motivações distintas. Enquanto a Grande Guerra de 1914 teve, desde o início, caráter mundial, em função sobretudo do colonialismo europeu que estendia seus tentáculos por vários continentes, a Segunda Guerra circunscreveu-se ao palco europeu, malgrado ter contado com a participação de países americanos e asiáticos.
A guerra fria assinalou a fase de confronto entre as duas superpotências que emergiram da Segunda Guerra Mundial, tendo seu clímax após o anúncio da Doutrina Truman, pela qual os Estados Unidos da América (EUA) se dispunham a apoiar os países que resistissem ao comunismo.
O fato de a URSS de Stálin ter conseguido fabricar a bomba atômica, mas não a de hidrogênio, impediu que durante a fase de tensão mais pronunciada da guerra fria houvesse um equilíbrio entre as superpotências em termos de poder de destruição do inimigo, o que levou o governo de Moscou a manter uma atitude de prudente cautela em momentos críticos, como os ocorridos na Coréia (1951), Vietnã (1954) e Cuba (1962).
Ainda que próximo dos EUA, especialmente em termos comerciais, o Brasil da segunda metade da década de 40 do século XX - governo Gaspar Dutra - procurou manter-se eqüidistante no cenário de polarização ideológica e de retórica demasiado agressiva da guerra fria, eximindo-se de assumir atitudes políticas que pudessem significar comprometimento ou ruptura com as superpotências.
Exemplos marcantes de guerras localizadas - de que foi pródigo o século XX, como lembra o texto - são as ocorridas no Oriente Médio, salientando o caráter estratégico da região, na qual se mesclam motivações de ordem religiosa, geopolítica e econômica, esta diretamente ligada às abundantes reservas de petróleo lá existentes.
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